Anticorpos Monoclonais para Enxaqueca

Os anticorpos monoclonais anti-CGRP são os mais novos tratamentos contra a enxaqueca ou migrânea. CGRP significa Calcitonin Gene-Related Peptide e representa um dos peptídeos envolvidos na cascata de fenômenos químicos que são observados durante uma crise de dor de cabeça em pacientes com enxaqueca. Além disso, o CGRP é um dos mais potentes vasodilatadores de nosso organismo. O seu antagonismo ou bloqueio, bem como o bloqueio de seu receptor, podem desempenhar papel importante na prevenção ou no combate as crises de dor de cabeça da enxaqueca.

São 4 os anticorpos desenvolvidos e todos já são aprovados para uso clínico nos Estados Unidos. No final do primeiro semestre de 2020, três deles já estão aprovados e disponíveis para uso no Brasil. Em 2019, o erenumabe e o galcanezumabe foram aprovados pela ANVISA para comercialização, enquanto o fremanezumabe, da TEVA, o foi no início de 2020 . É possível que o quarto anticorpo monoclonal anti-CGRP, o epitnezumabe não seja lançado no mercado brasileiro, embora a sua fabricante, ALDER, tenha sido comprada pela Lundbeck que possui medicamentos aqui. Desde maio de 2020, os pacientes podem dispor para uso dos três primeiros anticorpos lançados em nosso país.

Embora a sua eficácia não seja excepcional e talvez nem seja melhor do que a observada com o uso de uma combinação racional das drogas já disponíveis, a sua tolerabilidade e a facilidade com que são usados, em injeções subcutâneas administradas a cada intervalo de um mês, os torna bem melhores em termos de adesão e de menos efeitos colaterais do que os tratamentos disponíveis até 2019. A análise dos estudos já publicados sugere que todos os três têm eficácia similar e talvez a variação nos esquemas de doses e posologias é que faça a grande diferença entre os vários tipos de pacientes. O fremanezumabe por exemplo, foi estudado em doses de 225mg a cada 30 dias ou de  675mg de uma só vez a cada três meses. O galcanezumabe tem uma dose de ataque de 240mg e doses mensais de 120mg. O erenumabe, o primeiro de todos, tem doses de 70mg. A nossa opinião é de que esses anticorpos serão usados por muitos dos pacientes em conjunto com o que existe hoje no arsenal de medicamentos, adicionados aos esquemas já em uso pelos pacientes, e raramente serão usados como terapia única para enxaqueca, exceto em pacientes jovens ou com contraindicações absolutas aos medicamentos mais tradicionais.

Já adquirimos experiência com mais de 50 pacientes apenas no primeiro semestre de 2020 e em breve os resultados serão divulgados através de apresentações aos médicos brasileiros.

Além disso, é preciso se tomar muito cuidado com os médicos que não sabem prescrevê-los, pois o seu uso de forma incorreta e para as indicações inadequadas pode resultar em ineficácia e frustrações. Aliás, como aconteceu com os triptanos na década de 90 no Brasil, alguns médicos com pouco conhecimento e escolhidos apenas por influência política, estiveram envolvidos nas aulas para ensinar a classe médica a usá-los. Resultado: fracasso e uso inadequado fizeram com que os médicos quase abandonassem essa classe de medicamentos. Pelo que temos visto no final deste primeiro semestre de 2019, nem todos os envolvidos na divulgação dos anticorpos monoclonais têm realmente capacidade técnica e didática para ensinar algo aos seus colegas que tratarão os pacientes.

As maneiras de se adquirir esses anticorpos têm variado de serviços de delivery funcionantes mesmo durante a pandemia de Covid-19 até a venda em farmácias e deve-se ter muita atenção com a forma com que lhe serão prescritos esses tratamentos. Ao longo do tempo utilizaremos este espaço para mantê-los atualizados, mas cuidado com os mercantilistas e pouco criteirosos que farão de tudo, como fazem com a toxina botulínica, para ganhar dinheiro em condutas pouco éticas e pouco eficientes.