Anticorpos Monoclonais para Enxaqueca

Os anticorpos monoclonais anti-CGRP são os mais novos tratamentos contra a enxaqueca ou migrânea. CGRP significa Calcitonin Gene-Related Peptide e representa um dos peptídeos envolvidos na cascata de fenômenos químicos que é observada durante uma crise de dor de cabeça em pacientes com enxaqueca. Além disso, o CGRP é um dos mais potentes vasodilatadores de nosso organismo. O seu antagonismo ou bloqueio, bem como o bloqueio de seu receptor, podem desempenhar papel importante na prevenção ou no combate as crises de dor de cabeça da enxaqueca.

São 4 os anticorpos desenvolvidos, e todos já são aprovados para uso clínico nos Estados Unidos e no Brasil. No final do primeiro semestre de 2022, os quatro já estavam aprovados para uso no Brasil, mas apenas dois deles estão disponíveis. Em 2019, o erenumabe e o galcanezumabe foram aprovados pela ANVISA para comercialização, enquanto o fremanezumabe, da TEVA, o foi no início de 2020 e o eptinezumabe em fevereiro de 2022. No entanto, como havíamos previsto anteriormente, erros estratégicos inaceitáveis e condutas de marketing desprezando o óbvio, já inviabilizaram a presença no mercado de pelo menos 2 dos 4 anticorpos. O erenumabe (pasurta) e o galcanezumabe (emgality) foram “abandonados” por suas empresas fabricantes que esperavam que muitos médicos os prescrevessem. Como a classe médica brasileira nem sempre pratica uma medicina imparcial e voltada para o bem estar do paciente, esses dois anticorpos fracassaram. Tememos que os demais sigam o mesmo caminho com sociedades médicas decadentes orientando estratégias de marketing e usurpando o dinheiro das indústrias farmacêuticas, para um perfil de prescrição errático e incorreto.  

Embora a sua eficácia não seja excepcional e talvez nem seja melhor do que a observada com o uso de uma combinação racional das drogas já disponíveis, a sua tolerabilidade e a facilidade com que são usados, em injeções subcutâneas administradas a intervalos de um mês, os torna bem melhores em termos de adesão e de menos efeitos colaterais do que os tratamentos disponíveis até agora. A análise dos estudos já publicados sugere que todos têm eficácia similar e talvez a variação nos esquemas de doses e posologias é que faça alguma diferença entre os vários tipos de pacientes. O fremanezumabe por exemplo, foi estudado em doses de 225mg a cada 30 dias ou de  675mg de uma só vez a cada três meses. O galcanezumabe tem uma dose de ataque de 240mg e doses mensais de 120mg. O erenumabe, o primeiro de todos, tem doses de 70mg. O eptinezumabe será administrado de forma intravenosa e possivelmente em períodos de 3 meses. A nossa opinião é de que esses anticorpos serão usados por muitos dos pacientes em conjunto com o que existe hoje no arsenal de medicamentos, adicionados aos esquemas já em uso pelos pacientes, e raramente serão usados como terapia única para enxaqueca, exceto em pacientes jovens ou com contraindicações absolutas aos medicamentos mais tradicionais.

Já adquirimos experiência com mais de 194 pacientes durante os anos de 2020-22 e os primeiros resultados foram divulgados neste estudo encontrado no link a seguir e para os profissionais de saúde brasileiros.

https://www.jornalavancosmedicina.com/index.php/am/article/view/17

Além disso, é preciso se tomar cuidado com o uso inadequado por médicos pouco familiarizados com o assunto dor de cabeça e que têm dúvidas sobre como prescrevê-los. Deveria haver tutoriais de tratamento da enxaqueca para médicos generalistas e ministrados por outros médicos com habilidade de ensinar e apresentar condutas imparciais. Entretanto, lamentavelmente, a indústria associou-se a incompetentes e apadrinhados, interessados apenas no dinheiro. O uso de forma incorreta e para as indicações inadequadas já resultou em ineficácia e frustrações, como aconteceu com os triptanos na década de 90 no Brasil.

A escolha de tratamentos e de medicamentos por influência política e interesses comerciais secundários é ruim para os pacientes e para o conhecimento do arsenal farmacológico disponível. Além disso, a escolha dos envolvidos nas aulas para ensinar a classe médica a usar estas novas opções terapêuticas, deve ser sempre norteada por critérios de merecimento, evitando, assim, o fracasso observado e o uso inadequado dos triptanos que resultaram no quase abandono dessa classe de medicamentos. Pelo que temos visto desde o final de 2019, muitos envolvidos na divulgação dos anticorpos monoclonais têm limitada capacidade técnica, habilidades didáticas pífias e incapacidade para ensinar algo aos seus colegas que tratarão os pacientes.

As maneiras de se adquirir esses anticorpos têm variado de serviços de delivery até a venda em farmácias e deve-se ter muita atenção com a forma com que lhe serão prescritos esses tratamentos. Ao longo do tempo utilizaremos este espaço para mantê-los atualizados, mas advertimos para a identificação de profissionais mercantilistas e suas condutas questionáveis, como a toxina botulínica, para priorizar o dinheiro e benefícios pessoais em condutas pouco éticas e não eficientes.